Deus nos chamou das trevas para a luz, da morte para a vida, da escravidão para a liberdade. Todas essas mudanças só foram possíveis em Cristo, que morreu para nos salvar, nos libertar e dar propósito para a nova vida que passamos a viver, o que o homem não conseguiu plenamente pela Lei. Para viver esse propósito, Ele nos deu o Seu Espírito, que habita em nós, nos dirige, governa e nos dá total condições de vivermos a verdadeira liberdade, sem condenação alguma (Rm 8.1). Em Cristo, somos libertos da condenação da Lei, para vivermos a liberdade do Espírito, sob a “lei do Espírito de vida”.
MUDANÇA DE STATUS
O capítulo 8 de Romanos é o capítulo da reviravolta, é o capítulo de “dar a volta por cima”, como costumamos dizer quando vencemos algumas situações que nos são desfavoráveis. No capítulo 7, o Apóstolo Paulo pinta o retrato do homem que luta contra a “lei do pecado”, “lei do entendimento”, “lei de Moisés”, “lei de Deus”, e ele revela que mesmo “segundo o homem interior” (7.22) ele tenta fazer a vontade de Deus, ele vê nos seus membros “uma lei que batalha” (7.23) contra a lei de seu entendimento e lhe “prende debaixo da lei do pecado que está” nos seus membros (7.23). No capítulo 7, ele repete por diversas vezes a palavra “eu”, deixando clara essa luta interior, que ele e nós não podemos vencer por nossas próprias forças. Não que a Lei fosse má, pois muito pelo contrário, o próprio Apóstolo declara que ela é “espiritual” (7.14), “boa” (7.16), “santa; e o mandamento, santo, justo e bom” (7.12), porém o homem é carnal (7.14), entregue às paixões e preso ao corpo do pecado (7.24), e dele só pode ser livre através do Sangue de Jesus derramado na Cruz do Calvário (7.25). O “eu” do capítulo 7, aflito por cumprir os mandamentos, mas preso ao “corpo da morte” (7.24), agora liberto por Cristo entra no capítulo 8 com a certeza de que, se permanecer em Jesus, para ele não há condenação (Rm 8.1). Ele muda de condição, de posição, da morte para a vida.
A LEI DO ESPÍRITO DE VIDA
Em Cristo, que cumpriu a Lei (Mt 5.16-19), somos libertos do poder e da “lei do pecado e da morte” (Rm 7.23; 8.2), para vivermos sob outra lei, “a lei do Espírito de vida” (8.2). O que não conseguíamos vencer pela Lei, vencemos pelo Espírito. O “eu” vencido pelo pecado que dominava as nossas ações e subjugava as nossas vontades, agora é servo da “lei do Espírito de vida”. Andando segundo o Espírito Santo (8.4), o novo homem tem condições de viver em novidade de vida (Rm 6.4), inclinando-se sempre “para as coisas do Espírito” (8.5). Paulo explica que o contrário disso é “andar na carne”. Escrevendo aos Gálatas, Paulo descreve as ações de quem vive segundo a carne e entregue às obras da carne. Ele diz que “as obras da carne são manifestas, as quais são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro [escreve o Apóstolo], como já dantes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o Reino de Deus” (Gl 5.19-21). Essa “inclinação da carne é inimizade contra Deus” (Rm 8.7), e o resultado dessas obras é a morte (Rm 8.6). Porém, aqueles que receberam a Jesus não vivem na carne, mas no Espírito. O corpo do pecado está morto em Cristo, e agora é dominado pelo “Espírito de vida”, e recebe a verdadeira vida que só tem o que é nascido de novo (Jo 3). Além de receber vida hoje, agora, ele ainda recebe a promessa de ressurreição pelo mesmo Espírito que dos mortos vivificou a Jesus (8.11), para viver eternamente com Deus. Essa garantia de vida plena e eterna somente é possível através do “Espírito de vida”, e esta vida está condicionada ao fato de mortificarmos diariamente a nossa carne através do processo de santificação (8.12,13).
DE ESCRAVOS A FILHOS QUE SE RELACIONAM
Vimos até aqui que fomos libertos da “lei do pecado e da morte” para vivermos segundo a “lei do Espírito de vida”. Saltamos da morte para a vida, mudamos de posição e de posição. Glória a Deus! A manutenção dessa vida, como vimos, depende de mortificarmos diariamente as obras da carne. A nova vida em Cristo é dinâmica, e não se resume no novo nascimento que cada um experimentou ao passar da morte para a vida. Quando falamos em “andar”, remete-nos a uma prática diária e contínua, a uma experiência habitual. Além de “andar”, agora Paulo diz que somos também “guiados pelo Espírito de Deus” (8.14), para que nenhum de nós pense em si mesmo que consegue andar sozinho, e que lhe pertencem os méritos de seu sucesso na caminhada cristã. A obediência de quem se permite ser “guiado por Deus” é seguida da promessa de ser “filho de Deus” (8.14). Saímos de uma condição de escravo no capítulo 7, para recebermos a condição de “filho de adoção” no capítulo 8, pela obra de Jesus na Cruz e pela “lei do Espírito de vida”. Essa mudança é tão extraordinária e os benefícios são tão grandes que alguns, por não entenderem esse dom da graça de Deus, ainda se sentem como escravos, privando-se da condição de filho (8.15), e é por isso que o Espírito Santo “testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (8.16), nos lembrando diariamente dessa garantia. Somos filhos, e como tais devemos nos relacionar com Deus. Não como escravos. O escravo tem acesso restrito à presença do Senhor da Casa; o filho tem livre acesso. O filho senta-se à mesa, o escravo não. O filho sabe das coisas do Pai, o escravo não. O escravo não recebe a herança do pai, mas o filho é “herdeiro de Deus e co-herdeiro de Cristo” (8.17).
AS PRIMÍCIAS DO ESPÍRITO
Após falar de nossa garantia de herança eterna, Paulo anima os crentes dizendo que as “aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (8.18). O crente precisa ser exortado diariamente a não fixar os olhos nos problemas e fraquezas da vida cotidiana, nos terríveis embates que travamos, nas ardentes aflições pelas quais passamos. Pelo contrário, todo crente deve olhar para Jesus (Hb 12.2) e para a glória eterna que lhe aguarda. Enquanto aguardamos a manifestação da glória futura, somos envoltos em uma “ardente expectativa” (8.19) de deixarmos aqui toda a “aflição do tempo presente” para gozarmos da plenitude da vida eterna. Nesse mesmo sentido, “toda a criação geme” porque está sujeita ao pecado (8.20,22) e aguarda a sua própria restauração. A Bíblia de Estudo Pentecostal diz que “a criação [a natureza animada e inanimada] tornou-se sujeita ao sofrimento e às catástrofes físicas, por causa do pecado humano (v.20). Deus, portanto, determinou que a própria natureza será redimida e recriada. Haverá novo céu e nova terra; uma restauração de todas as coisas, segundo a vontade de Deus (cf. 2 Co 5.17; Gl 6.15; Ap 21.1,5).” Essa expectativa de restauração fica ainda mais ardente em nós, uma vez que já experimentamos “as primícias do Espírito” (8.23), o que gosto de chamar de uma amostra do que teremos no céu. Relacionado à colheita de cereais, as primícias eram os primeiros frutos colhidos, que eram ofertados ao Senhor (Lv 23.9-14). Eram a amostra e a garantia de que uma colheita ainda maior estava por vir. Dessa forma, o que recebemos do Espírito Santo hoje é uma amostra, um sinal do que nos aguarda na eternidade. Assim, quando olhamos para as aflições, é bom também sempre nos lembrarmos que elas não podem se “comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (8.18). Há uma colheita muito maior! Vivendo no Espírito, temos recebido as primícias como garantia da grande colheita que está por vir.
O ESPÍRITO QUE INTERCEDE
Há um texto que sempre me chamou a atenção, 1 Co 2.9,10: “Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem são as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus.” Transcrevo ambos os versículos para chamar a sua atenção para algo muito importante: o mesmo Espírito Santo que penetra as profundezas de Deus é o Espírito que habita em você! Dá para imaginar o que podemos encontrar nas profundezas de Deus? Impossível! Mas o Espírito Santo sabe! Ele sabe os planos de Deus, os projetos de Deus, a grandeza de Deus, a majestade de Deus, a glória de Deus. Das “profundezas de Deus”, o Espírito sabe o que Ele planejou para você, e, por saber por completo o que Deus pensa e projetou a seu respeito e a respeito da igreja, conhecendo também as nossas fraquezas (8.26), Ele “intercede por nós com gemidos inexprimíveis” para não sermos levados pelas aflições e tribulações e perdermos de vista as promessas e garantias eternas conquistadas por Cristo na Cruz.
CONCLUSÃO
O Senhor nos resgatou, nos libertou da “lei do pecado e da morte”, para andarmos em novidade de vida, segundo a “lei do Espírito de vida”, que nos guia e intercede por nós, tendo em vista as nossas fraquezas e aflições, para jamais perdermos de vista a herança que nos aguarda no céu.


