Raizes Pentecostais

O Tabernáculo: modelo do plano perfeito da salvação

INTRODUÇÃO

A Carta aos Hebreus é, sem dúvida, um dos livros mais profundos da Bíblia. Sobre a sua autoria, alguém já disse que ela foi omitida por causa da grandeza das revelações que a carta nos traz. Sendo assim, a omissão do autor faz com que a glória dessas revelações fique restrita somente a Deus, e não ao escritor. De qualquer forma, concluímos que o autor de Hebreus era alguém conhecedor do Tabernáculo em seus mínimos detalhes, bem como do culto e do serviço prestados nele pelos levitas.

Neste texto, abordaremos alguns dos objetos apresentados pelo escritor no capítulo 9 da carta, o seu significado para o Tabernáculo e aquilo que representam na Nova Aliança.

O TABERNÁCULO É UM TIPO DE JESUS CRISTO

“A tipologia é uma técnica, associada bem de perto à alegoria, mediante a qual pessoas, eventos, instituições ou objetos de qualquer espécie passam a simbolizar ou ilustrar a pessoa de Jesus Cristo ou, então, aspectos da fé, da doutrina, das práticas, das instituições cristãs etc.” (Champlin, 2008, p. 438).

Como vimos, o tipo é uma antecipação ou uma revelação temporária de algo maior que está por vir. Como forma de alcançar o coração e a mente do homem, Deus revelou-se gradativamente, de modo que sombras, tipos e símbolos do Antigo Testamento se cumpriram em Jesus Cristo, em Sua revelação como o Filho de Deus encarnado, na plenitude dos tempos.

Nesse sentido, vemos no Tabernáculo um tipo perfeito de Jesus Cristo e de Sua obra. Sobre isso, Conner afirma:

“A primeira e principal interpretação referente ao Tabernáculo de Moisés é encontrada na pessoa do Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus. A Palavra que se tornou carne e ‘habitou [literalmente tabernaculou] entre nós’ (Jo 1.14). Jesus mesmo declarou: ‘No livro está escrito a meu respeito’ (Hb 10.7) e também testemunhou que ‘ele (Moisés) escreveu a meu respeito’ (Jo 5.46). A Lei, os Salmos e os Profetas profetizaram a respeito do Senhor Jesus Cristo e de seu ministério redentor (Lc 24.44). Em Ez 11.16 e Is 8.14 encontramos: ‘Ele será um santuário’.” (Conner, 2015, p. 8).

Em Êxodo 25.9, o próprio Senhor falou a Moisés:

“Conforme tudo o que eu te mostrar para modelo do tabernáculo e para modelo de todos os seus móveis, assim mesmo o fareis.”

Moisés recebeu a planta, o projeto para a construção do Tabernáculo. Essa planta era, nada mais nada menos, uma cópia do que já havia no céu. Toda a construção daquele lugar de adoração, bem como de seus móveis e utensílios, deveria ser feita conforme aquele modelo recebido e visto por Moisés, que era uma figura das coisas celestiais.

O escritor aos Hebreus confirma isso em Hebreus 9.23:

“De sorte que era bem necessário que as figuras das coisas que estão no céu assim se purificassem; mas as próprias coisas celestiais, com sacrifícios melhores do que estes.”

Portanto, vemos no Tabernáculo, em seus móveis, utensílios e no serviço prestado nesse “primeiro tabernáculo” (Hb 9.1), figuras de um Tabernáculo maior e mais glorioso, cujo modelo original está no céu e foi revelado em Jesus Cristo, o “sumo sacerdote dos bens futuros” (Hb 9.11).

A SUPERIORIDADE DA NOVA ALIANÇA EM CONTRASTE COM A ANTIGA

Como vimos até aqui, o Tabernáculo foi um tipo de Jesus Cristo, da revelação maior e suprema que haveria de vir. Assim, Jesus é o antítipo, ou seja, “a realidade prefigurada pelo tipo”.

Hebreus 9.1 nos diz que o Tabernáculo “tinha ordenanças de culto divino”; no entanto, o “santuário era terreno”, apontando para o “maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação” (Hb 9.11).

Ao escrever o capítulo 9 de Hebreus, o autor mantém o mesmo propósito apresentado no início da carta: demonstrar a superioridade de Cristo e da Nova Aliança em contraste com a Antiga Aliança. Tudo na Nova Aliança é superior à antiga.

Sobre isso, Matthew Henry, comentando o capítulo 9 de Hebreus, escreveu:

“Ao pronunciar que a dispensação do Antigo Testamento era antiquada e tinha perdido seu efeito, o apóstolo prossegue para mostrar aos hebreus a correspondência que havia entre o Antigo Testamento e o Novo; e que tudo que era excelente no Antigo era típico e representativo do Novo, que, portanto, precisa exceder o Antigo tanto quanto a essência excede a sombra. O Antigo Testamento nunca teve o propósito de que descansemos nele, mas de preparar para as instituições do evangelho.” (Henry, 2008, p. 787).

A Antiga Aliança foi a sombra de uma Nova Aliança imensamente superior. A primeira aliança era falha, enquanto a segunda é perfeita. A Antiga trata do povo como coletividade; a Nova trata o homem individualmente. A Antiga é terrena e transitória, no sentido de seu Tabernáculo e de seu culto; a Nova é celestial e eterna. A Antiga baseia-se em regras e preceitos; a Nova fundamenta-se no “novo nascimento” (Jo 3.3), por meio do qual a Lei de Deus é gravada em nosso coração. A Antiga exigiu o sacrifício de milhares de animais e, ainda assim, tanto sangue derramado não foi suficiente nem eficaz para remover o pecado do homem. Na Nova Aliança, porém, o sangue de Jesus, o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29), é poderoso e eficaz, tendo sido derramado uma única vez para a salvação da humanidade (Hb 9.28). A Antiga possuía um povo escolhido, os judeus; a Nova Aliança abrange toda raça, tribo e nação, pois o sangue de Jesus derrubou toda parede de separação, fazendo de ambos os povos um só (Ef 2.14).

José Gonçalves, em A Supremacia de Cristo – Fé, esperança e ânimo na Carta aos Hebreus, afirma que “a Antiga Aliança [era] rica em símbolos, porém pobre em produzir relacionamentos com Deus”, razão pela qual precisou ser “substituída pela Nova Aliança”. O mesmo autor observa que o relacionamento mais íntimo com Deus, na Antiga Aliança, era restrito a um grupo seleto de pessoas, enquanto o povo contemplava de longe a manifestação da glória divina. Na Nova Aliança, porém, por meio da manifestação livre e poderosa do Espírito Santo de Deus, todas as pessoas têm a oportunidade de experimentar a presença do Senhor e de ser usadas como instrumentos em Suas mãos. Além disso, o serviço não está restrito a um grupo específico, como acontecia com os levitas; todos são chamados ao serviço cristão.

Em Hebreus 9.6-9, o escritor da carta, profundo conhecedor do culto judaico, do Tabernáculo e de seu serviço, lembra que a entrada no Lugar Santíssimo acontecia apenas uma vez por ano (Êx 30.10) e era restrita exclusivamente ao sumo sacerdote (Hb 9.7), que oferecia sacrifícios “por si mesmo e pelas culpas do povo” (Hb 9.7). No versículo 8, ele faz uma declaração à qual devemos dar especial atenção: “dando nisso a entender o Espírito Santo que ainda o caminho do Santuário não estava descoberto, enquanto se conservava em pé o primeiro tabernáculo”. Não há dúvida de que “o caminho para o céu não estava tão claro e plano, nem tão frequentado, sob o Antigo Testamento, como sob o Novo” (Henry, 2008, p. 789). Enquanto o primeiro tabernáculo permanecesse erguido, o novo ainda não seria plenamente revelado, e o acesso à presença de Deus continuaria limitado. O “mistério que esteve oculto desde todos os séculos e em todas as gerações” (Cl 1.26) ainda não havia sido revelado. Havia apenas uma vaga expectativa, sombras e tipos. Mas, glória a Deus, Cristo Se revelou, trazendo salvação e libertação a todos os homens. A porta abriu-se, dando acesso indistinto à presença de Deus. O chamado agora é dirigido a todos os “cansados e sobrecarregados” (Mt 11.28). Os pecadores que estavam sem Cristo, “estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2.12), agora são aproximados de Deus e recebem a vida eterna pelo sangue derramado na cruz (Ef 2.13).

O CAMINHO PARA O SANTO DOS SANTOS

O propósito deste tópico é demonstrar como Deus, por meio do Tabernáculo, apontou o perfeito plano de salvação que seria manifestado em Cristo. A começar pela ordem da construção dos móveis e utensílios, Deus deixa claro que a salvação não partiria do homem, mas seria uma iniciativa Sua. O Manual de Teologia da EETAD, no livro Pentateuco: A Lei do Senhor é Perfeita, afirma:

“Assim, o ponto de partida [para a construção] foi o Lugar Santíssimo; daí para o Pátio ou Átrio, local onde foi colocado o altar de bronze (Êx 25.10-14). A ordem partiu de Deus para o homem. Recordemo-nos do caminho do Filho de Deus, que desceu do seio de Seu Pai à manjedoura de Belém, e depois ao Calvário, tendo alcançado o pecador desgarrado. A ordem na qual nossas almas percebem a verdade é de fora para dentro. Começamos na porta, que fala de decisão, e no altar de bronze, da salvação; chegamos ao lavatório, da santificação; e daí seguimos até o trono de Deus, o Lugar Santíssimo.”

Paulo escreve em Romanos 15.4: “Porque tudo quanto dantes foi escrito para nosso ensino foi escrito […]”. No Tabernáculo, o Senhor nos ensinou que há um caminho a ser percorrido por aqueles que desejam entrar no Santuário Eterno, no “maior e mais perfeito tabernáculo” (Hb 9.11). O homem precisa entrar no pátio e passar pelo Altar de Bronze, o lugar do sacrifício, onde o animal era morto. O Calvário é o nosso altar, pelo qual todo homem precisa passar, se deseja ter acesso ao Santuário.

Após passar pelo altar, o sacerdote deparava-se com a Bacia de Bronze, feita com os “espelhos das mulheres” (Êx 38.8). Essa bacia tinha dupla função.

“Ela servia para revelar toda a impureza através dos espelhos (Hb 4.12-14) e tornava limpo através da água (Ef 5.26). Quando nós nos tornamos limpos pelo espelho e pela água da Palavra, contemplamos, como por um espelho, a glória do Senhor e podemos, assim, refletir essa mesma imagem (2 Co 3.18).” (Conner, 2015, p. 129).

Somente após passar pela cruz e pelo processo de santificação mediante a “lavagem da água, pela palavra” (Ef 5.26), o pecador pode entrar no Lugar Santo, rumo ao Lugar Santíssimo, onde se encontrará com o Deus Todo-Poderoso.

Não posso deixar de destacar que, nesse caminho rumo ao Santo dos Santos, o homem encontra o Candeeiro, que representa Jesus como a Luz do Mundo. O candeeiro ficava em frente à Mesa dos Pães da Proposição. Henry (2008) enfatiza que é pela luz de Cristo que chegamos, com discernimento, à mesa dos pães, discernindo perfeitamente o “corpo do Senhor” (1 Co 11). Não podemos chegar à mesa de Cristo no escuro!

OS OBJETOS DENTRO DA ARCA DA ALIANÇA

Conforme lemos em Hebreus 9.4, dentro da Arca da Aliança “estava um vaso de ouro, que continha o maná, e a vara de Arão, que tinha florescido, e as tábuas do concerto”. Assim como tudo no Tabernáculo, esses elementos também possuem um simbolismo.

Conner (2015) afirma que cada um desses objetos pode representar uma pessoa da Trindade. As tábuas da Lei seriam uma figura de Deus Pai, o Legislador de Israel, por cuja voz a nação recebeu os mandamentos; o vaso de ouro contendo o maná remete ao Deus Filho, que é o “Pão da Vida” e o pão que desceu do céu (Jo 6.48-50); e a vara de Arão que floresceu é uma figura do Espírito Santo, “pois na vara de Arão observamos o princípio de gerar vida e frutificar” (Gl 5.22,23).

Henry (2008) também apresenta um significado precioso sobre esses elementos. Em seu comentário, afirma que o maná, no deserto, apodrecia quando guardado, mas, depositado na casa de Deus, por Sua orientação, era preservado da corrupção, permanecendo sempre puro e doce. Isso nos ensina que somente em Cristo nossa pessoa, nossas virtudes e nossas realizações são conservadas puras. O maná era também um tipo do Pão da Vida que temos em Cristo.

Quanto à vara de Arão que floresceu, Henry afirma que ela “era um tipo da justiça divina, pela qual Cristo, a Rocha, foi ferido, e de quem a água refrescante da vida flui para a nossa alma”. Já as tábuas do concerto representam a consideração e o cuidado que Deus tem por Sua santa Lei, bem como o zelo que todos nós devemos demonstrar em guardá-la.

CONCLUSÃO

Com este breve texto, espero ter despertado no leitor a curiosidade e o desejo de conhecer um pouco mais sobre o Tabernáculo e seus significados. Sem dúvida, o escritor da Carta aos Hebreus era um profundo conhecedor do lugar de adoração dos hebreus no deserto e, ao mesmo tempo, mantinha profunda comunhão com o Senhor, que lhe revelou verdades ocultas nos símbolos e tipos do “santuário terreno”, plenamente reveladas em Cristo.

Meu desejo e minha oração, caro leitor, é que a Palavra de Deus lhe seja revelada cada vez mais e que dela te alimentes sem limites. Afinal, ela é uma fonte inesgotável.

REFERÊNCIAS

  • Bíblia de Estudo Pentecostal.
  • CONNER, Kevin J. Os Segredos do Tabernáculo de Moisés.
  • HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Matthew Henry.
  • CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia.
  • EETAD. Manual de Estudos – Pentateuco.
  • GONÇALVES, José. A Supremacia de Cristo – Fé, Esperança e Ânimo na Carta aos Hebreus.
  • Concordância Bíblica Exaustiva. Editora Vida.

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