Estamos a analisar o feliz diagnóstico dado pelo pastor José Gonçalves, pastor presidente das Assembleias de Deus em Água Branca/PI, comentarista das Lições Bíblicas da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) e membro da Comissão Apologética da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Eis a mui feliz análise deste grande estudioso das Escrituras: “O pentecostalismo começou como um movimento periférico que, graças ao poder do Espírito Santo e ao forte comprometimento de seus líderes fundadores, conquistou relevância, reconhecimento e prestígio. Contudo, aquilo que foi conquistado por força de intervenções sobrenaturais e muitas lágrimas derramadas dá sinais de arrefecimento e esvaziamento. A meu ver, na base desse esfriamento estão o secularismo e consumismo que transformaram igrejas em casas de shows e entretenimento; o institucionalismo, que fomentou disputas por espaço e poder, transformando algumas Convenções em verdadeiras Prefeituras; e o afrouxamento ético e doutrinário, que mundanizou muitas igrejas e as converteu em meros clubes sociais. Fica o alerta bíblico: ‘Não apagueis o Espírito’ (I Ts.5:19).”
Já vimos o que significa dizer que o avivamento pentecostal no Brasil foi um movimento. Mas, na sua felicíssima análise, o pastor José Gonçalves enfatiza que este movimento foi um movimento “periférico”, ou seja, um movimento que teve sua ocorrência na “periferia”. “Periferia” é palavra grega que significa “circunferência”, no sentido de “fora do centro”, tanto que também tem o significado de “região afastada do centro urbano de uma cidade, em geral carente de serviços e infraestrutura, que abriga grande parte da sua população econômica e socialmente desfavorecida; conjunto dos países pouco desenvolvidos em relação às grandes potências, estas consideradas como centro de um sistema socioeconômico mundial”. O avivamento pentecostal não ocorreu no “centro da sociedade”, não foi um movimento que tenha acontecido a partir das “lideranças eclesiásticas”, mas algo que se iniciou no meio da população mais simples, como vemos na história das denominações pentecostais, quando observamos que a pregação pentecostal do Evangelho foi dirigida, primeiramente, às camadas pobres da população, aos desvalidos e aos despossuídos de bens materiais.
Verdade é que o Espírito Santo mandou os missionários pioneiros das Assembleias de Deus para Belém do Pará, que vivia, naquele tempo, o chamado “ciclo da borracha”, que já se encaminhava para o seu final, local onde havia pessoas de várias partes do país, precisamente para que, com o término deste “boom econômico”, as pessoas saíssem para outros locais, já levando a mensagem do Evangelho completo. Agia, assim, o Espírito Santo da mesma forma que o fez no dia de Pentecostes, onde a mensagem do Evangelho já saiu, de pronto, disseminada às nações para onde retornaram os peregrinos que creram na mensagem da salvação em Cristo Jesus (At.2:5). Esta qualidade “periférica” é mais uma demonstração de que o pentecostalismo foi uma ação do Espírito Santo, não dos homens, e que, portanto, não pode ser explicada pelo raciocínio humano. O pentecostalismo seguiu o modelo bíblico, que é um modelo centrífugo, ou seja, que parte do centro para a periferia, como determinou o Senhor Jesus, que mandou que Seus discípulos fossem testemunhas desde Jerusalém até os confins da terra (At.1:8), uma “Igreja em saída”, como disse, por incrível que pareça, o Papa Francisco em sua primeira exortação apostólica, escrito em que aproveitou, inclusive, um rascunho de seu antecessor Bento XVI.
Inclusive, por ser um movimento “periférico”, passou a ser perseguido pelo “centro”, pela elite da sociedade, a começar da Igreja Romana, e por autoridades civis. Sendo um movimento periférico, o pentecostalismo não pode, jamais, abandonar a periferia, não pode querer fazer parte do “centro da sociedade”, não pode almejar compartilhar do “centro do poder”, mas, sim, permanecer na “periferia”, não se comprometendo com o mundo nem com as suas estruturas sócio-econômico-políticas, que estão todas no maligno (I Jo.5:19). Notemos que os discípulos, mesmo quando ainda em Jerusalém, mantinham-se na “periferia” daquela cidade, encheram a capital dos judeus da doutrina de Jesus (At.5:28), estando nas ruas e caminhos a levar a mensagem da salvação em Jesus (At.5:15,16) e, no templo, estando num lugar marginal, à parte, onde não se confundiam com os demais frequentadores daquela casa de oração (At.5:12,13). Apesar disto, sua influência chegava ao “centro”, tanto que muitos dos sacerdotes passaram a obedecer à fé (At.6:7). A ação do Evangelho não está circunscrita a estruturas sociais, alcançando a todos os que creem, pertençam eles às camadas mais simples e que se encontram no piso da sociedade, pertençam eles à elite da sociedade, às classes dirigentes.
No livro de Atos dos Apóstolos, que é o modelo bíblico da evangelização e de igreja, sendo um livro a um só tempo histórico e prescritivo, vemos que o Evangelho alcançou desde os mais simples, desde os escravos (que eram a maioria na igreja, até porque eram a maioria na sociedade de então – Cf. Ef.6:5-8) até altas autoridades do Império Romano, como o procônsul Sérgio Paulo, por exemplo (At.13:7,12). No entanto, deve a Igreja, e o pentecostalismo no Brasil o fez, manter-se como “movimento periférico”, ou seja, como um movimento que, tendo ido até a “periferia”, dali parta para o centro da sociedade, ganhando ali também almas para Cristo, mas jamais querendo ali se estabelecer, jamais querendo ali fincar a sua base, pois o reino de Deus não é deste mundo (Jo.18:36). Na “periferia”, o avivamento — que, como todo avivamento, é obra exclusiva do Espírito Santo — havia as condições adequadas para que se mantivessem os crentes na total dependência divina, já que não havia qualquer fator em que se pudesse apegar ou confiar a não ser no Senhor. É bem por isso que o pastor José Gonçalves diz que este “movimento periférico” conquistou relevância, reconhecimento e prestígio graças ao poder do Espírito Santo. Desde quando agiu nos pioneiros, trazendo-os para o Brasil, o Espírito Santo sempre encontrou liberdade de atuação nos crentes, que, movidos pela Sua direção, não deixavam de obedecer-Lhe a voz e de pregar o Evangelho, confirmando o Senhor a Palavra com os sinais que se seguiram. Assim como ocorreu nos dias apostólicos, os discípulos não deixavam de pregar o Evangelho, levando a mensagem para onde quer que fossem. Deste modo, não só os missionários pioneiros e os que, depois deles, vieram para o Brasil evangelizavam, como também todos os membros não deixavam de anunciar a Jesus Cristo.


