“Antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja dada a glória.” (2 Pe 3.18)
A Bíblia é o livro de Jesus. Ponto. As Escrituras constituem a revelação progressiva de Deus e do seu plano de salvação para a humanidade por meio de Jesus Cristo. Portanto, ao lermos a Bíblia, é preciso ter isso em mente: Jesus é o seu tema central. Se Ele é o tema central, precisamos nos assentar e ouvir o que tem a dizer sobre alguns assuntos essenciais da nossa fé.
Jesus tem muito a nos ensinar, mas vamos nos ater apenas a alguns aspectos de sua teologia, especialmente ao lugar de sua teologia na eternidade, ao que Ele ensinava a respeito de si mesmo, das Escrituras, do Espírito Santo e da igreja.
POR QUE A TEOLOGIA DE JESUS JAMAIS SOFREU E JAMAIS SOFRERÁ QUALQUER ALTERAÇÃO NO TEMPO E NA ETERNIDADE?
“No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” (João 1.1)
A teologia de Jesus não sofre alteração no tempo nem na eternidade porque o próprio Jesus é eterno. Ele não tem início nem fim de dias. Ele transcende a eternidade. O nobre amigo Pr. Natanael Santos, membro deste grupo, cita em seu livro A Glória do Verbo:
“Embora a expressão ‘no princípio’ seja a mesma usada para dar início ao relato da criação no livro de Gênesis 1.1, no Evangelho de João ela aponta para um princípio sem começo que remonta à eternidade intraduzível, significando que o Logos, em tempo algum, jamais deixou de existir com o Pai (Cf. Cl 1.17).”¹
O Dicionário Ilustrado da Bíblia define “eternidade” como “tempo infinito ou ilimitado; tempo sem começo nem fim […] como Criador, Deus trouxe o mundo à existência, mesmo antes do próprio tempo (Gn 1.1).”² Esse entendimento pode ser difícil para o homem preso ao “chronos”. Não há como mensurar esse tempo dentro da existência do mundo e das coisas criadas.
Paulo, escrevendo aos colossenses acerca do Cristo eterno, diz:
“O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.” (Cl 1.15-17)
Em concordância com Paulo, João escreve: “Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.2,3). Em Apocalipse 1.8, Jesus diz acerca de si mesmo: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso.”
O tempo não pode consumir a teologia de Cristo porque ela é eterna, assim como Ele o é. As bases de seus ensinamentos estão em Deus e na eternidade.
Outrossim, a teologia de Jesus é plenamente suficiente para os homens de todos os tempos (passado, presente e futuro), não carecendo de acréscimos ou adaptações. Seu ensinamento é atemporal e alcança os homens de todas as gerações.
QUAL ERA A TEOLOGIA DE JESUS A RESPEITO DAS ESCRITURAS?
Nesse ponto, é importante iniciar afirmando que Jesus é o cumprimento das Escrituras. O Antigo Testamento está repleto de profecias e tipologias que apontam para a pessoa de Jesus.
As Escrituras falam de seu nascimento (Is 9.6; Mq 5.2; Dn 9.24-27), de sua vida e ofícios (Dt 18.15; 1 Sm 2.35; Jr 23.5,6; Is 28.16; Is 52.13; Is 35.5,6), de sua morte e ressurreição (Sl 22; Is 53; Sl 16.10; At 2.25-31; At 13.34-37) e garantem a sua volta em glória para arrebatar a igreja (Jo 14.1-3; 1 Ts 4.16-18; etc.).
Acerca de Jesus como o centro das Escrituras, o pastor Antônio Gilberto, ao escrever o livro Bibliologia para o Curso Básico de Teologia da EETAD, cita Scofield, que resume os 66 livros da Bíblia em quatro palavras a Ele referentes, da seguinte forma:
“Preparação: todo o Antigo Testamento, ao tratar da preparação do advento de Jesus Cristo. Manifestação: os Evangelhos, ao tratar da encarnação, manifestação e vida de Jesus Cristo. Explanação: são as Epístolas, que fornecem o esclarecimento sobre a doutrina de Cristo. Consumação: o Livro de Apocalipse, ao tratar da consumação de todas as coisas preditas através de Cristo.” (p. 23-24)³
Acerca das Escrituras, Jesus afirma que:
- Elas testificam dele (Jo 5.39);
- Reconhece o Antigo Testamento e tudo o que acerca dele ali está escrito (Lc 24.27,44);
- Afirma que Moisés escreveu acerca dele (Jo 5.46);
- É necessário crer nele conforme as Escrituras (Jo 7.38);
- Confirmou que a traição de Judas seria um cumprimento das Escrituras (Jo 13.18; 17.12);
- As Escrituras são a Palavra de Deus e não podem ser invalidadas pelas tradições dos homens (Mc 7.13);
- Demonstrou ser um exímio conhecedor e cumpridor das Escrituras (Mt 4.4,7,10).
Fica claro para todo amante e leitor das Escrituras que Jesus ratificou a autoridade da Bíblia Sagrada, afirmando ser ela a Palavra de Deus, o “pão escrito” para a alma faminta. Em seu ministério, utilizou diversas vezes a expressão “está escrito” para fazer menção aos textos do Antigo Testamento, demonstrando a importância de lermos e vivermos as Escrituras Sagradas (Mt 4.4,7,10; 11.10; 21.13; 26.24,31; Mc 7.6; 9.12; 10.5; 11.17; 14.21,27; Lc 7.27; 10.26; 18.31; 19.46; 20.17; 22.37; 24.44,46; Jo 6.45; 8.17; 10.34).
QUAL ERA A TEOLOGIA DE JESUS ACERCA DE SI MESMO?
Desde o início, Jesus declarou ser o Filho de Deus e ter vindo para cumprir a vontade do Pai (Jo 6.38). Acerca de sua deidade, as Escrituras revelam os seus atributos divinos. Veja: Ele é eterno (Is 9.6), onipotente (Ap 1.8), onipresente (Mt 18.20) e onisciente (Jo 16.30). Enfatizando a divindade de Jesus, a Declaração de Fé das Assembleias de Deus apresenta um texto maravilhoso, que transcrevo abaixo:
“Ele é o absoluto soberano criador de todas as coisas. Ele é a fonte da vida, autor do novo nascimento, habita nos fiéis, dá a vida eterna, inspirou também os profetas e apóstolos, distribuiu os ministérios, santifica os fiéis, deu poder aos apóstolos, perdoa os pecados, é adorado pelos humanos, pelos anjos, na terra e no céu. Possui títulos divinos, como ‘Eu Sou’, o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, e o Senhor dos Senhores.” (p. 51)⁴
Além de declarar-se Deus, Jesus disse que é a “Porta das Ovelhas”, pela qual entramos e somos salvos (Jo 10.9); o “Bom Pastor”, “que dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10.11); e a “Videira Verdadeira”, da qual somos os ramos (Jo 15). Apesar de ser “Soberano e Senhor”, declarou ser “manso e humilde de coração” (Mt 11.29).
Em sua teologia, afirmou ser o Messias esperado (Jo 4.26); o “Pão da Vida”, o “Pão Vivo que desceu do céu” para alimentar a alma faminta (Jo 6.35-38,48-50). Acerca de si mesmo, disse também que é a “Luz do Mundo” (Jo 8.12); que é “de cima”, vindo do céu, e não de baixo (Jo 8.23); declarou ser “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14.6) e que é o conhecimento dessa verdade que liberta o homem da escravidão do pecado (Jo 8.32,36). Para loucura dos religiosos de seu tempo (e do nosso), declarou que existia antes de Abraão (Jo 8.58). Para garantir esperança eterna, afirmou que é a ressurreição e a vida (Jo 11.25).
Resumidamente, Jesus tinha plena consciência de que era o Filho de Deus encarnado (Fp 2.5-8), o Servo Sofredor (Is 53), o Cordeiro de Deus ferido e morto desde a fundação do mundo pelos nossos pecados (1 Pe 1.18-20; Ap 13.8), o Cristo que ressurgiria dos mortos, vencendo a morte e o inferno (Mt 20.17-19; Lc 18.31-34; Ap 1.17,18; etc.), o Noivo que voltaria para buscar a sua igreja (Jo 14.1-3; etc.) e o Rei que governará para sempre (Jo 18.36).
QUAL ERA A TEOLOGIA DE JESUS A RESPEITO DO ESPÍRITO SANTO?
Jesus apresentou o Espírito Santo como o “parakletos”, “alguém chamado para ficar ao lado de outro para o ajudar”. A promessa de Jesus era que não deixaria os discípulos e a igreja órfãos, mas enviaria o Espírito Santo da promessa para estar com a igreja para sempre (Jo 14.16,17).
Acerca de “parakletos”, a Bíblia de Estudo Pentecostal traz a seguinte nota:
“É um termo rico de sentido, significando Consolador, Fortalecedor, Conselheiro, Socorro, Advogado, Aliado e Amigo. O termo grego para outro é, aqui (Jo 14.16), ‘allon’, significando ‘outro da mesma espécie’, e não ‘heteros’, que significa outro, mas de espécie diferente. Noutras palavras, o Espírito Santo dá prosseguimento ao que Cristo fez quando na terra.” (p. 1601)⁵
Jesus prometeu a descida do Espírito Santo (Lc 24.49), promessa que se cumpriu no Dia de Pentecostes (At 2). Disse também que o Espírito Santo é o “Espírito da verdade, que procede do Pai” (Jo 15.26; 16.13) e que Ele testificaria dele. Acerca do Espírito, declarou ainda que Ele é o responsável por convencer o “mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8), que não falará de si mesmo, mas tudo o que tiver ouvido do Pai (Jo 16.13), glorificando sempre a Pessoa do Filho (Jo 16.14).
A intenção deste texto não é descrever tudo o que Jesus ensinou sobre o Espírito Santo, tampouco discorrer sobre a “Doutrina do Espírito Santo”, o que demandaria muitas páginas. Por isso, por ora afirmamos que, em seu ministério terreno, Jesus declarou que o Espírito Santo é Deus, assim como Ele e o Pai, e que o Espírito Santo seria o “Ajudador” da igreja em sua ausência, até que Ele voltasse para arrebatá-la. Desde então, após Atos 2, o Espírito Santo tem revestido a igreja de poder e autoridade para a pregação e propagação do Evangelho de Cristo, cooperando para a sua expansão e manifestando sobre nós os seus preciosos dons.
QUAL ERA A TEOLOGIA DE JESUS A RESPEITO DA IGREJA?
Jesus é a Pedra sobre a qual a igreja está edificada (Mt 16.18,19), ao contrário do que ensina a Igreja Católica Romana, que afirma ser Pedro essa pedra.
O apóstolo Pedro jamais assumiu, no seio do cristianismo, ser ele a “rocha” sobre a qual a igreja está edificada. Pedro é “petros”, “pedra pequena, móvel”, e não “petra”, que significa “rochedo grande e firme”. Jesus é a Rocha, a Pedra Angular, rejeitada pelos homens, mas aprovada por Deus para a edificação de sua igreja (Ef 2.20). Acerca disso, o próprio Pedro declarou ser Jesus a Pedra (At 4.11; 1 Pe 2.4,5).
A igreja é o mistério de Deus, que “esteve oculto desde todos os séculos e em todas as gerações e que, agora, foi manifesto aos seus santos; aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória” (Cl 1.26,27 — leia também Ef 3.1-10). Por meio da igreja, manifestada aos santos através de Cristo, Deus tem revelado a sua graça salvadora, trazendo o homem perdido de volta ao seu Criador e revelando à humanidade as riquezas da sua glória.
CONCLUSÃO
A teologia de Jesus não é uma teologia de gabinete, feita de “teólogo para teólogo”, mas uma teologia prática. Ela sai da letra fria para a vida cotidiana. Mais do que ser apenas pronunciada com os lábios, a teologia de Jesus deve ser demonstrada em atos, conforme vemos no Sermão do Monte (Mt 5–7). É a teologia vivida por Ele nas aldeias, nas vilas, dentro das casas, nas sinagogas, nas praias e nos barcos, à mesa de uma ceia, no partir do pão, caminhando com os amigos, no jardim da oração, no Monte do Calvário, no túmulo vazio e no cenáculo do Pentecostes.
REFERÊNCIAS
- SANTOS, N. A Glória do Verbo. São Paulo: Edição do Autor, 2018.
- YOUNGBLOOD, R. F. Dicionário Ilustrado da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2004.
- SILVA, A. G. Bibliologia I. Campinas: EETAD, 2014.
- Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
- Bíblia de Estudo Pentecostal.
- GILMER, T. L. Concordância Bíblica Exaustiva. São Paulo: Editora Vida, 1999.
- OLIVEIRA, R. F. Elementos da Teologia Bíblica. Campinas: EETAD, 2014.
- BOYER, O. Pequena Enciclopédia Bíblica. São Paulo: Editora Vida, 1999.
- VINE, W. E. Dicionário Vine. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.
- HORTON, S. M. Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2013.
Pr. Samuel Eudóxio
Pastor Auxiliar na AD Ministério de São João del-Rei (MG). Atua na área de ensino bíblico e teológico como Superintendente de EBD, professor, palestrante e pregador.


