Raizes Pentecostais

A Superioridade do Sacrifício de Cristo

A Bíblia, em sua perfeição, conecta Levítico, Salmos e Hebreus, costurando a história da redenção. Quando Jesus iniciou seu ministério terreno, sua missão foi anunciada por João Batista em uma única frase: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29).

João, a quem muitos consideravam excêntrico, fez um extraordinário salto teológico ao unir o Antigo e o Novo Testamento em um único anúncio. Paul House resume bem essa coordenada teológica ao afirmar que “só é possível compreender cada um desses processos a partir de seu respectivo ápice; a teologia bíblica terá de entender o AT à luz da revelação finalizada de Deus em Cristo, para a qual o AT esteve preparando — terá de mostrar como o propósito salvador divino, cumprido em Cristo, moveu-se ao longo das etapas preliminares desta história de revelação”.

João Batista não disse que Jesus era apenas mais um cordeiro. Ele era o Cordeiro. Os sacrifícios anteriores apenas cobriam o pecado de forma temporária, mas Jesus não veio para cobrir; veio para remover. Nesse contexto, tirar significa extirpar, extinguir, destruir por completo.

Esse Cordeiro mudo, levado ao matadouro sem dizer uma palavra, passou pelas mãos do Sinédrio, de Pilatos, de Herodes e de uma multidão que clamava: “Crucifica-o”. Contudo, não foi Roma quem o crucificou. Não foi o Sinédrio. Ele mesmo se entregou. Fez-se maldição por nós. Desde a fundação do mundo (Hb 4.3; 1 Pe 1.20), já estava determinado que Ele seria o Cordeiro que derramaria seu sangue para a purificação dos nossos pecados.

No sistema levítico, os sacrifícios não envolviam apenas holocaustos. Havia também a oferta de manjares feita com farinha. O ofertante misturava a farinha e preparava manualmente um bolo. Esse ato simbolizava Cristo sendo moído na cruz. Mas a farinha, por si só, não era suficiente. Levítico estabelece que era necessário adicionar azeite. Isso aponta para Jesus, sobre quem repousava o Espírito Santo. No Antigo Testamento, o Espírito descia sobre alguém para capacitá-lo para uma tarefa e depois se retirava. Com Cristo, porém, foi diferente. Ele não apenas recebeu o Espírito; o Ruach HaQodesh habitava n’Ele plenamente.

Um episódio registrado nos Evangelhos (Lc 4.16-20) confirma a unção especial que repousava sobre Cristo. Quando entrou na sinagoga, leu as Escrituras Sagradas e sentou-se na cadeira de Moisés. Isso equivaleria a alguém, em um culto atual, sentar-se no assento reservado ao dirigente da congregação. Ninguém, porém, ousou repreendê-lo, porque Ele não era um sumo sacerdote qualquer. Era o Sumo Sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque.

Jesus tomou o livro de Isaías 61 e começou a ler: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os de coração ferido, a proclamar liberdade aos cativos e libertação aos presos.” Profecia e cumprimento aconteciam simultaneamente. Ele não disse que o Espírito apenas havia descido sobre Ele, mas que estava sobre Ele. O azeite não apenas o tocou; permaneceu sobre Ele.

Quando Jesus pregava, prisões eram destruídas, doenças desapareciam, ventos e mares lhe obedeciam. O azeite estava sobre Ele. Era o bolo de farinha sendo amassado e o azeite sendo derramado. Ele não apenas pregava; carregava a essência da unção. Havia ainda um mistério maior: Ele não seria apenas a oferta, mas também o ofertante. Seria, ao mesmo tempo, sacrifício e sacerdote.

Na cruz, quando bradou, rasgou o véu do templo, simbolizando sua entrada no santuário celestial e, como Sumo Sacerdote eterno, apresentou-se diante do Pai e declarou: “A oferta perfeita foi entregue. O preço foi pago.” A condenação foi cancelada. O acusador foi derrotado.

E não parou ali. Jesus fez uma visita à sepultura, tomou as chaves da morte e do inferno, demonstrando que Satanás não detinha mais esse poder. Embora ainda lhe seja permitido exercer um domínio parcial, seu tempo está contado. Como Paulo afirmou, a morte é o último inimigo a ser vencido (1 Co 15.26). Nessa visita ao mundo dos mortos, Jesus alterou até mesmo a morada dos justos. Retirou aqueles que estavam no seio de Abraão e os levou ao terceiro céu, onde aguardam a ressurreição.

Como sinal desse poder, quando bradou na cruz, as sepulturas se abriram e muitos mortos ressuscitaram. Não houve, porém, alarde nem espetáculo vazio. Paulo explica que Jesus é as primícias dos que dormem (1 Co 15.20). Eles foram despertados, mas permaneceram ocultos até que Jesus ressuscitasse e se manifestasse. Só então apareceram, confirmando que algo extraordinário havia acontecido (Mt 28.51-53).

 

Jesus, agora no santuário celestial, apresentou a oferta perfeita, mas fez algo que nenhum outro sacerdote jamais fizera. No tabernáculo terreno, os sacerdotes trabalhavam de pé. Em toda a estrutura do santuário não havia cadeira. O trabalho nunca cessava, porque os sacrifícios jamais eram suficientes. Jesus, porém, depois de concluir sua obra, assentou-se. Hebreus 10.12 afirma: “Ele, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, assentou-se para sempre à destra de Deus.” Sua obra está consumada. O sacrifício foi realizado uma vez por todas.

 

Alguém pode ter se incomodado porque Jesus se sentou na cadeira de Moisés na sinagoga, mas aquilo ainda não era a maior exaltação que receberia. Mais tarde, após cumprir sua missão na cruz e ascender aos céus, assentou-se à direita de Deus, no santuário celestial. E onde Ele está agora? No lugar de autoridade suprema, pois todo poder lhe foi confiado. O sistema sacrificial levítico foi abolido, e a igreja agora está diante de um novo tipo de culto.

 

E o que Ele está fazendo ali, assentado? Aguarda até que o Pai coloque seus inimigos debaixo de seus pés. Salmos 110.1 declara: “Assenta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés.” O escabelo era um pequeno banco onde o rei apoiava os pés para descansar. Deus prometeu ao Filho que esse momento chegaria: o dia em que esmagaria definitivamente a cabeça da serpente.

 

Satanás pode agir contra a igreja, pode tentar subverter o mundo, mas se esquece da profecia que pesa sobre ele. Não é a igreja que pisa na cabeça do diabo; é o Sumo Sacerdote eterno, que aguarda o momento exato para descer vitorioso com sua igreja. Naquele dia, declarará a derrota do anticristo, do falso profeta e da besta e, mais adiante, da própria morte, lançando-a no lago de fogo e enxofre (Ap 20.14). Isso não é alegoria nem metáfora teológica. É uma realidade.

 

Deus é espírito, mas Jesus tem corpo. Um corpo físico, ressuscitado e glorificado, ascendeu aos céus, e alguns tiveram o privilégio de vê-lo. O primeiro foi Estevão. Quando estava prestes a ser apedrejado, seus inimigos olharam para ele e viram algo incomum: seu rosto parecia o de um anjo (At 6.15). Um homem à beira da morte deveria estar tomado pelo medo, pela ansiedade, clamando por ajuda. Mas Estevão declarou: “Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, que está em pé à direita de Deus” (At 7.56).

 

Jesus, que se assentou após concluir sua obra redentora, fez algo extraordinário naquele momento. Levantou-se para receber o primeiro mártir da igreja, como quem dizia: “Vem, bendito de meu Pai, para o reino que te está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25.34).

 

A igreja não precisa da ONU, da UNESCO, da Greenpeace nem de qualquer outra organização humana. A igreja tem um Dono. Ele cuida dela, protege-a, guarda-a e, em breve, virá buscá-la para a grande festa memorial do Cordeiro, aquela ceia prometida em Mateus 26.29: “Digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai.”

 

A mesa já está preparada, e o Sumo Sacerdote eterno servirá o banquete à noiva adornada, conforme cantamos essas verdades bíblicas no Hino 206 da Harpa Cristã, “O Clarim Já Nos Alerta”, de R. H. Cornelins:

O clarim já nos alerta,
Nosso coração desperta,
Pois a vinda é bem certa de Jesus;
De mil anjos rodeado,
Para o crente preparado,
Cristo volta coroado. Aleluia!

Ó irmão por Deus liberto,
Pelo sangue estás coberto;
Tens o teu perdão bem certo, salvo estás;
Voz de júbilo ouviremos
E no céu nós cantaremos,
Cristo breve nós veremos. Aleluia!

Lá nas bodas do Cordeiro,
Sentaremos prazenteiros;
Oh! Que gozo verdadeiro com Jesus!
Pois no céu não há mais pranto,
Eis que tudo será canto;
Cristo vem buscar os santos. Aleluia!

Sim, à mesa sentaremos,
E com Cristo cearemos;
Quão felizes nós seremos com Jesus!
Para sempre gozaremos,
E com Cristo reinaremos,
Sua glória fruiremos. Aleluia!

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